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16 fevereiro 2015

Torcendo por você


Mesmo antes de nascer, já tinha alguém torcendo por você. Tinha gente que torcia para você ser menino. Outros torciam para você ser menina. Torciam para você puxar a beleza da mãe, o bom humor do pai. Estavam torcendo para você nascer perfeito. Daí continuaram torcendo. Torceram pelo seu primeiro sorriso, pela primeira palavra, pelo primeiro passo. O seu primeiro dia de escola foi a maior torcida. E o primeiro gol, então? E de tanto torcerem por você, você aprendeu a torcer. Começou a torcer para ganhar muitos presentes e flagrar Papai Noel. Torcia o nariz para o quiabo e a escarola. Mas torcia por hambúrguer e refrigerante. Começou a torcer até para um time. Provavelmente, nesse dia, você descobriu que tem gente que torce diferente de você. Seus pais torciam para você comer de boca fechada, tomar banho, escovar os dentes, estudar inglês e piano. Eles só estavam torcendo para você ser uma pessoa bacana. Seus amigos torciam para você usar brinco, cabular aula, falar palavrão. Eles também estavam torcendo para você ser bacana. Nessas horas, você só torcia para não ter nascido. E por não saber pelo que você torcia, torcia torcido. Torceu para seus irmãos se ferrarem, torceu para o mundo explodir. E quando os hormônios começaram a torcer, torceu pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso. Depois começou a torcer pela sua liberdade. Torcia para viajar com a turma, ficar até tarde na rua. Sua mãe só torcia para você chegar vivo em casa. Passou a torcer o nariz para as roupas da sua irmã, para as idéias dos professores e para qualquer opinião dos seus pais. Todo mundo queria era torcer o seu pescoço. Foi quando até você começou a torcer pelo seu futuro. Torceu para ser médico, músico, advogado. Na dúvida, torceu para ser físico nuclear ou jogador de futebol. Seus pais torciam para passar logo essa fase. No dia do vestibular, uma grande torcida se formou. Pais, avós, vizinhos, namoradas e todos os santos torceram por você. Na faculdade, então, era torcida pra todo lado. Para a direita, esquerda, contra a corrupção, a fome na Albânia e o preço da coxinha na cantina. E, de torcida em torcida, um dia teve um torcicolo de tanto olhar para ela. Primeiro, torceu para ela não ter outro. Torceu para ela não te achar muito baixo, muito alto, muito gordo, muito magro. Descobriu que ela torcia igual a você. E de repente vocês estavam torcendo para não acordar desse sonho. Torceram para ganhar a geladeira, o microondas e a grana para a viagem de lua-de-mel. E daí pra frente você entendeu que a vida é uma grande torcida. Porque, mesmo antes do seu filho nascer, já tinha muita gente torcendo por ele. Mesmo com toda essa torcida, pode ser que você ainda não tenha conquistado algumas coisas. Mas muita gente ainda torce por você. Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação duvidosa do mundo, mas a poesia inexplicável da vida. Eu torço por você.

Carlos Drummond de Andrade

02 setembro 2013

Palavras

Quantas coisas as palavras podem esconder? Quantas coisas elas podem revelar? Ninguém ao certo sabe dizer, nem mesmo podem escrever. Palavras jogadas ao vento, palavras não ditas, palavras escritas, novas e antigas, aquelas palavras que traduzem o passado, que decifram o futuro. Para alguns apenas palavras, para outros metáforas. Elas dizem sobre tudo um pouco, as vezes não dizem nada; delas se fazem versos, sobre a beleza ou escuridão do universo, escritas no verso de qualquer papel que esteja perto. Podem falar de uma vida e muitas palavras, falar de muitas em uma única. No fim quem sabe, ninguém de verdade. Escoam à dor que há em muitos, traduzem os sentimentos mais sombrios, mostram a exuberância de uma felicidade, muitas as vezes são ditas em olhares, sorrisos, em todos os lugares, palavras, escritas no auto de um prédio de cinco ou dez andares, organizadas em frases ou pares. Nascem no choro do poeta, jogadas nas folhas de eucalipto, que se bem expressadas formam um texto bonito, que muitas das vezes contam sobre o céu infinito ou talvez sejam apenas palavras que sempre evito. Posso usar para escrever sobre mim ou sobre você, sobre quem quiser ler, não possuem donos, são de quem quiser escrever, ser, aparecer, são bonitas quando um sentimento nelas conter, seja triste ou alegre, então escreva para poder dizer. Porque não basta apenas saber escrever, é preciso saber usar as palavras, para não magoar a você ou qualquer outro ser, escrever com prazer, vontade sempre ter, para joga-las num papel e algo belo sempre ver. Palavras que sempre poderão me descrever ou me devorar, por elas posso me apaixonar, até chegar a odiar, mas são palavras que eu sempre vou amar, que uso para minha alma lavar. Com boa inspiração coisas novas de palavras velhas poderão vir, se um bom sentido existir. São elas que me fizeram chegar até aqui, sorrindo e chorando, seja angustiado ou feliz. Porque nas palavras faço de tudo um pouco, falo do meu coração oco, de como a vida sempre me disfere os soco, mas mesmo assim queimam nos olhos o fogo, de surgir tudo de novo. Palavras, belas palavras, sejam escritas ou faladas, pois mesmo alguns odiando e outros amando, serão sempre palavras.

— O poeta triste 

31 agosto 2013

Quebrado



Quando as coisas quebram, não é a quebra real que os impede de voltar a ficar juntos novamente. É porque um pequeno pedaço se perde - as duas extremidades restantes não poderiam caber em conjunto, mesmo se quisessem. A forma inteira mudou.

                      

  — John Green.



30 novembro 2012

Você mudou


“Acho que você não entendeu que quando o amor se acaba na verdade nunca se amou.”
- Você mudou